|
BOB
NO BRASIL
Bob
Marley, Junior Marvin (guitarrista dos Wailers), Jacob Miller
vocalista do Inner Circle), Chris Blackwell (diretor da Island
Records) e a esposa Blackwell, Nathalie, vieram ao Brasil em
um jato particular para participar da festa que inaugurou as
atividades do selo alemão Ariola no pais. A Island, gravadora
original dos Wailers, era então um selo da Ariola. Bob
interrompeu as sessões de gravação que
resultariam no álbum 'Uprising' para vir ao Brasil. Na
descida em Manaus, para reabastecimento, o jato ficou retido
por algumas horas. O governo militar certamente não estava
vendo com bons olhos a vinda daquela comitiva enfumaçada.
Depois de alguma negociação as autoridades acabaram cedendo,
mas sem liberar vistos de trabalho, o que desestimulou os que
pensaram em improvisar uma apresentação deles em solo
brasileiro. Depois ainda desceram em Brasília e rapidamente
decolaram em direção ao Rio de Janeiro.

Chegaram no aeroporto Santos Dumont às 18h30m
do dia 18 de março, terça-feira. Logo foram cercados pelos
repórteres. Bob era mais conhecido na época por ser o autor de
"No Woman No Cry", música que havia vendido 500 mil copias na
versão de Gilberto Gil. Suas primeiras declarações foram sobre
a música brasileira: "O samba e o reggae são a mesma coisa,
tem o mesmo sentimento das raízes africanas". Sobre Jah, o
Deus do rastafarianismo ele apenas disse: "É como o seu Deus,
pouca gente o conhece". Cansado da
viagem, o grupo rumou logo para o Copacabana Palace, onde
ficariam hospedados.

No dia
seguinte, pela manhã, eles trataram de dar algumas voltas pela
Cidade Maravilhosa fizeram questão de conhecer a favela da
Rocinha, que acharam bastante parecida com os guetos da
Jamaica. Como não haviam trazido um cozinheiro para Ihes
preparar a comida I-tal - cozinha natural seguida pelos
rastafaris - Bob, Junior e Jacob só se alimentaram com sucos
de frutas. Segundo um acompanhante brasileiro, cada um bebeu
quinze copos de suco e Bob gostou mais dos de manga e maracujá.
Depois os três partiram para as compras e percorreram as lojas
de material esportivo atrás de uniformes e outros equipamentos.
Os instrumentos musicais também não foram esquecidos e os três
rastas levaram violões, maracas, atabaques e cuícas. Os
artigos esportivos tiveram a sua estréia no famoso jogo no
campo de Chico Buarque.

O trio jamaicano chegou
as 16h00 no km 18 da Avenida Sernambetiba - três horas atrasados - quando os funcionários
da Ariola jogavam animadamente contra alguns dos contratados
da gravadora no Brasil, como o anfitrião Chico Buarque,
Toquinho, Alceu Valença e outros. Logo que eles chegaram os
times foram rapidamente rearrumados e ficaram assim: Bob
Marley, Junior Marvin, Paulo César Caju, Toquinho, Chico e
Jacob Miller de um lado; e do outro Alceu Valença, Chicão (músico
da banda de Jorge - ainda Ben) e mais quatro funcionários da
gravadora. Antes de começar o jogo Bob ganhou uma camisa 10 do
Santos e sorriu, dizendo "Pelé" para depois explicar que
jogava em qualquer posição. Mas ele foi mesmo para o ataque e
o placar foi de 3 a 0 para o seu time, com gols dele (documentado
pela TV - veja foto desse jogo abaixo), de Chico e de Paulo
César. Este, que jogou na copa de 70, foi o mais festejado por
Bob, que lhe disse: "Sou fã de seu futebol", ao que Paulo
César respondeu, "E eu, de sua musica". Bob lembrou o
campeonato mundial que marcou a ilha do reggae: ''Rivelino,Jairzinho,
Pelé... o Brasil é o meu time. A Jamaica gosta de futebol por
causa do Brasil". Mas a principal razão para a vinda dos
jamaicanos era a big festa da gravadora e logo que o jogo
acabou eles voltaram para o hotel.

A festa no alto do Morro
da Urca foi no mesmo dia - 19 de março - e teve mais de 1000
convidados e penetras, com direito a engolidor de fogo,
cartomante e fogos de artifício. Bob Marley chegou com os
amigos às 22h00, e foi logo para um
camarote. Tranqüilo, apesar de muito assediado, conversou com
Moraes Moreira, Marina e com os participantes do jogo As
pessoas estranhavam o fato de ele não beber, o que era
explicado por suas convicções rastas. Baby Consuelo, que havia
feito uma versão de "Is This Love", tentou ir lá cumprimentá-lo
mas não conseguiu. Depois dos discursos dos diretores da
gravadora ele se afastou para assistir a apresentação de
Moraes Moreira, que começou às 24h00
e fez a pista de dança encher. A agitação foi tanta que Bob
deve ter percebido o significado da expressão "Rio Babilônia".
A esperança geral era de que ele desse uma canja. Moraes
chamou Baby no palco para cantar a sua versão e talvez fazer
Bob se decidir. Mas nessa hora ele já estava se levantando e
arrastando repórteres, fotógrafos e curiosos à sua passagem,
falando com os jornalistas enquanto se encaminhava para o
bondinho.Na manhã seguinte estava programada uma coletiva para
a imprensa que acabou sendo realizada às pressas pois os
jornalistas chegaram atrasados e a partida de Bob e sua
comitiva estava marcada para as 16h00.
Sobre os brasileiros ele disse:"É fácil perceber que as
pessoas aqui têm ritmo e feeling, não só no andar, mas no
falar e no próprio interesse demonstrado pela música em
qualquer uma de suas manifestações''. Para ele a mensagem do
reggae tem grande importância, pois "os músicos devem ser
porta-vozes dos grandes contingentes oprimidos. No nosso caso,
a responsabilidade é maior por causa das nossas crenças
religiosas. A própria filosofia do reggae explica tudo isso. O
reggae surgiu do gueto e sempre foi fiel às suas origens,
levando ao mundo uma mensagem de revolta, protesto e reinvindicação''. O mundo à sua volta é percebido em cores
fortes."O Apocalipse está nas ruas, no dia-a-dia de cada um. É
o meu povo que sofre, o povo da rua, o pobre. É dele que estou
falando". No entanto ele se mostrava profético em seu otimismo
sobre o futuro do reggae: "o reggae não é nenhuma moda, agora
está havendo um revival do ska (ver Skarcéu) e quem está
ouvindo essa musica é a geração jovem, até brancos. Isso é
salutar como uma semente bem regada, não é uma moda. Isso vai
crescer. Espere só, mon". Bob Marley e amigos partiram na
mesma tarde do dia 20 de março, quinta-feira, para a Jamaica.

Junior Marvin contou que
durante essa viagem Bob começou a compor várias músicas que
ficariam inacabadas. Contou também que eles planejavam incluir
o Brasil na turnê mundial que aconteceria no segundo semestre
de 80 e o Inner Circle iria abrir os shows, o que foi citado
por vários jornais da época. No entanto, dois dias depois de
voltar à Jamaica, no dia 23 de março, Jacob Miller morreria
num acidente de carro em Kingston. No final, do mesmo ano, Bob
Marley sentiu de maneira contundente os sintomas da doença que
o levaria a morte em maio de
1981.

O sonho de uma apresentação de Bob Marley no Brasil
jamais se concretizou, mas ao menos tivemos a oportunidade de
conhecer outro lado de suas personalidade, mostrando que longe
dos palcos e dos estúdios ele era apenas uma pessoa como
qualquer outra. Todos os jornais que cobriram sua visita
destacaram o fato de que ele se mostrava sempre acessível e
disposto, sem traço de estrelismo. Esta vinda ao Brasil foi
ofuscada na biografia de Bob Marley pela apresentação na festa
da independência do Zimbabwe, que aconteceria menos de um mês
depois. Mas para quem sente a sua música bater com toda força
sem causar dor, esta é uma lembrança inestimável.

As declarações de Bob Marley foram dadas aos seguintes
jornais: Jornal do Brasil, O Globo, Folha de São Paulo, Jornal
da Tarde. Colaboração: Sr. Yassuo
Ono, Sra Helena Faria (arquivo JB),
Sr. Geraldo Carvalho.
Este artigo foi traduzido
para a língua inglesa e publicado na revista The Beat e no
jornal Reggae Roots International.
Confira nesta super entrevista as
impressões que o rei teve do
Brasil e as mensagens passadas por ele.
Na
manhã do último dia que Bob passou no Brasil, terça feira, 20
de março, uma conferência de imprensa foi organizada às
pressas, pois provavelmente ninguém pensou em fazê-la na manhã
anterior. Mas mais uma vez, os jornalistas se atrasaram e a
conferência acabou sendo bem curta.
Durante a entrevista, ele declarou que "Músicos devem ser
porta-vozes para as massas oprimidas. No nosso caso, a
responsabilidade é ainda maior por causa de nossas crenças
religiosas. A filosofia do reggae explica tudo isso. O reggae
se propagou a partir dos guetos, e tem sido sempre fiel a suas
origens, trazendo ao mundo uma mensagem de revolta, protesto e
luta pelos direitos humanos."
"O
apocalipse está nas ruas, na vida diária de cada um. É o meu
povo que sofre, o homem na rua, o pobre, é deles que eu falo."
Aqui estão mais alguns
trechos da entrevista:
(P:
Pergunta. R: Resposta.)
P: "Você está gostando
desta viagem? O que você acha da música brasileira?"
R: "Bom...Eu amo o futebol
brasileiro, e nós ouvimos falar muito do Brasil durante a Copa
do Mundo. O Brasil é sempre o primeiro time a ser mencionado
na TV e nos jornais. Paulo César é o meu jogador favorito."
P: "Gilberto Gil vendeu 500
mil cópias de "Não chores mais" no Brasil. Como você explica
isso?"
R: " Bom, é fácil de
explicar... O reggae tem o mesmo gosto que vocês conhecem, as
mesmas raízes e a temperatura que o samba tem. Nós somos
próximos."
P: "Você vê Bob Marley como
um superstar do rock?
R: Não cara....isso é um
engano sabe? E eu toco reggae...não rock!!! (risadas).
Eu não sou um "Mick Jagger", minha música transmite outra
mensagem. E o reggae não é uma música momentânea como o Twist
foi. Na Inglaterra, o Ska está voltando às rádios, e quem está
ouvindo é a nova geração, até mesmo os brancos. O reggae está
crescendo cara.....apenas espere e veja...."
P: "Bob, você pode mandar
uma mensagem para o povo brasileiro?"
R: "Cara, é fácil perceber
que os brasileiros tem ritmo, tem bossa, não apenas no jeito
que eles se movimentam e falam, mas no interesse que eles
mostram pela música, em todas as manifestações musicais. Eu
gostaria muito de ter a oportunidade de um dia ter uma relação
profunda com os brasileiros. Eu acabei de passar apenas 2 dias
aqui, mas tenho curtido muito todo o tempo que passei, e tive
a chance de conhecer músicos que fazem um bom trabalho, como
Gilberto Gil. Eu joguei um pouco de futebol e vou voltar em
setembro para jogar aqui e para ficar mas próximo das pessoas."
Por: Léo
Vidigal.
Massive Reggae
Todo Material desta seção são
reservados para
Massive Reggae
Todos os Direitos Reservados.
Proibida a copia sem a autorização segundo a lei nº 5.988
14/12/1973. |